Com ou Sem Vergonha?

Você se lembra de alguma ocasião em que passou vergonha? Quando foi? E como foi?

Como você avalia essa experiência hoje? O fato é que todos nós, em algum momento,

passamos por situações que nos colocaram diante de um constrangimento ou embaraço.

O que é vergonha?

O sentimento de vergonha aparece cada vez que somos convidados a inibir nossa própria

ação ou expressão. Um toque recusado, uma gargalhada que esbarra em olhares

desconcertantes, uma palavra que é ignorada, um gesto que é ridicularizado… A vergonha

é aquele sentimento que nos permite compreender quais expressões, gestos, falas e

comportamentos são aceitáveis no grupo social a que pertencemos, nos possibilitando

regular nosso comportamento a depender do contexto em que nos encontramos. Nesse

sentido, a vergonha tem lá sua utilidade, desde que esses momentos de embaraço sejam

ocasionais e passageiros e a relação com o outro seja logo restabelecida.

Isso pode se tornar um problema?

Quando alguém é exposto repetidamente a situações de deboche, humilhação ou

constrangimento, principalmente na infância, a vergonha pode assumir um lugar central e

determinante em sua vida, tornando-se uma espécie de pano de fundo que orienta tanto

seus sentimentos quanto suas ações e expressões.

Isso pode acontecer quando na infância ou adolescência repetidamente ouvimos frases

como “está muito bom, mas…”

, enfrentamos deboches ou reações negativas exageradas e

desproporcionais por erros menores ou somos ridicularizados pelo que dizemos ou

fazemos. Nesses casos, a pessoa passa a conviver com a sensação de que há algo de

errado com ela, sem saber exatamente o que é.

O sentimento de vergonha propriamente dito passa a não ser mais percebido; é como se

ele fosse guardado numa bolsinha que acompanha a pessoa a todo momento; ela sente o

peso da bolsinha como uma sensação rudimentar, nebulosa e confusa, que não encontra

definição em palavras.

Como isso interfere no dia a dia?

A pessoa leva para a vida uma sensação constante de inadequação, defeito ou

inferioridade, sente um forte desejo de não ser vista e tenta evitar ao máximo a expressão

de seus anseios, sentimentos e necessidades, crendo que assim evitará novas situações

potencialmente constrangedoras; se habitua a se calar, a se segurar, a parar e a não fazernada… Isso traz muitas dificuldades no desenvolvimento de suas potencialidades, com

prejuízos escolares, profissionais e nas relações.

O inverso também pode acontecer: a pessoa acredita que precisa se esforçar muito para

ser “igual aos outros”

, então faz muitas coisas, toma iniciativa, se coloca… Quando essas

experiências são bem-sucedidas, podem até reduzir momentaneamente a sensação de

inadequação.

Porém, como há aquela bolsinha da vergonha que continua sendo carregada para lá e para

cá, esse sucesso costuma não ser suficiente para reverter totalmente esses sentimentos; o

sofrimento continua presente e pode se manifestar em forma de ansiedade, vícios ou

relações disfuncionais.

Como superar?

O trabalho em psicoterapia é indicado e consistirá, então, em encontrar e revisitar a tal da

bolsinha, acessar essas sensações nebulosas que estão lá dentro, senti-las e

ressignificá-las, além de experimentar novas possibilidades e respostas.

A partir daí, muitas situações que antes pareciam ameaçadoras serão vividas com mais

naturalidade. As novas situações de fato constrangedoras, que eventualmente acontecerão,

poderão ser toleradas e vivenciadas de forma realmente passageira e mais leve, e as

experiências de sucesso terão um efeito muito mais potente na reconstrução da autoestima.

Autora: Carolina Miranda Mello Clepard – CRP 06/77217

Texto produzido pela autora a partir de sua experiência em atendimentos clínicos, discussões de casos, cursos e

leituras técnicas.

Texto de caráter informativo que não substitui o atendimento psicológico.